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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Força, Steve

BENJAMIN STEINBRUCH

 Força, Steve



Se não tivesse feito o curso de caligrafia, Jobs talvez nunca tivesse criado um computador como o Mac


A mãe dele era uma jovem solteira. Quando engravidou, em 1954, decidiu imediatamente que entregaria o filho para adoção. Menino ou menina, seu desejo era o de que o bebê fosse adotado por pais com formação superior, para que tivesse no futuro a oportunidade também de cursar uma universidade.
Os pais que estavam em primeiro lugar na fila para adoção esperavam por uma menina. Mas, no dia do parto, receberam um telefonema de madrugada: "É um menino? Vocês o querem?". "Claro", respondeu rapidamente a mãe adotiva, que lhe deu o nome de Steve.
Até então, a mãe biológica imaginava que os pais escolhidos fossem advogados. Mas, logo depois, descobriu que nenhum dos dois tinha formação universitária e recusou-se a assinar os papéis definitivos da adoção. Só acabou cedendo porque o casal assumiu o compromisso de colocar o filho na universidade no futuro.
Ao completar 17 anos, Steve realmente foi para uma universidade, cumprindo-se, portanto, a promessa dos pais. Entrou no Reed College, em Portland, no Oregon (EUA).
Cerca de seis meses depois do início das aulas, o jovem se deu conta de que o compromisso era muito penoso para os pais adotivos, que eram operários. Se ele continuasse naquela universidade, bastante cara, em pouco tempo consumiria a poupança que o casal havia guardado durante toda a vida. Além disso, o curso que fazia não lhe interessava muito.
Decidiu seguir o que mandava seu coração, saiu da faculdade, mas ficou pelas imediações por mais 18 meses. Nesse período, passou a assistir aulas que pareciam muito mais interessantes, de caligrafia, fora da grade curricular.
Trabalhou como catador de garrafas de Coca-Cola, que vendia a US$ 0,05 cada uma, e dormiu durante algum tempo no chão, em quartos de amigos. Nas noites de domingo, costumava andar 11 km para ganhar uma boa refeição semanal no templo de Hare Krishna.
O jovem Steve não sabia disso, mas fazer aquele curso de caligrafia seria uma das melhores decisões de sua vida. Naquela época, não tinha a menor ideia sobre qual aplicação teria aquilo para ele. Mas, dez anos depois, quando projetou o primeiro computador Macintosh, na garagem da casa dos pais, essa formação foi muito útil. O Mac foi o primeiro computador com design e tipologia bonitos e modernos. Sem o conhecimento que adquiriu naquele curso simples, na periferia da universidade, talvez nunca tivesse sido criado um computador como o Mac.
Para quem ainda não sabe, essa é a história da vida de Steve Jobs, o magnata americano que foi um dos fundadores da Apple, em 1974. Dez anos depois, essa empresa americana já faturava US$ 2 bilhões e empregava 4.000 pessoas. Em 2011, tornou-se a maior empresa do mundo em valor de mercado.
A história de Jobs foi contada por ele próprio em depoimento emocionante para formandos da Universidade de Stanford, na Califórnia, em 2005. Circula na internet há anos um vídeo com essa conferência, que recomendo. É emocionante, uma verdadeira lição de vida.
O próprio Jobs fala dessa lição. Diz que as pessoas precisam ter a coragem de seguir seu coração e sua intuição, mesmo quando o caminho de suas vidas é diferente do previsto. É preciso ter confiança de que os pontos, de alguma maneira, vão se conectar no futuro. A conexão entre o curso de caligrafia e o Macintosh, por exemplo, foi direta, mas só ocorreu dez anos depois.
Ou seja, é preciso ter determinação e persistência para realizar os próprios sonhos e satisfazer suas curiosidades. Muitas vezes, somos tentados a desistir deles, influenciados demais por opiniões alheias. Se realizasse o sonho da mãe biológica, Jobs seria uma pessoa preparada e culta, com formação universitária, mas certamente não seguiria o caminho que o levou a criar uma das mais importantes companhias da área de tecnologia do século 21.
Em agosto, Jobs pediu demissão da presidência da Apple para tratamento de saúde. Aos 56 anos, está enfrentando uma nova batalha pessoal, contra um câncer no pâncreas. Que vença mais essa. Como ele mesmo disse, "às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça", mas nunca se deve perder a fé.

BENJAMIN STEINBRUCH, 58, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp. Escreve às terças, a cada 14 dias, nesta coluna.
bvictoria@psi.com.br